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– Morom com a Sete, por favor.
– Pois não.

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– Essas ruas andam tão esburacadas…
– Pois é, não são só as ruas.
– Ah eh?!
– difícil explicar…
– Mas a tua sorte, moça, é que tu é assim, branquinha, aparentemente tem uma vida boa.
– Pareço ter uma vida boa?!
– Pois sim, com essa malona.
– Transporto corações congelados, aí preciso de bastante espaço pra colocar os isopores e tudo mais…
– Ta de sacanagem, né?
– to.
– Mas é isso, se tu não é branco e aparentemente bem de vida, bem resolvido, os caras te espancam.
– Que caras?
– Os porcos, principalmente nas madrugadas… eu que trabalho de noite vejo muita coisa que vocês, que moram pelo centro, não vêem.
– Pois sim, a gente só supõe a dor dos outros e escreve…
– Tu é escritora, moça?
– Não…
– Estudante?
– Não…
– Que tu faz em Passo Fundo?
– Eu to de passagem. Eu gosto de morar numa casa colorida e de ler.
– Bacana… Eu gosto de dirigir, sabe? Meu nome é Evandro, mas todo mundo me chama de Alemão.
– Prazer, Carla.

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– Posso te dever quarenta centavos?
– Rum. Começou o abuso.
– Vou deixar o cartão, pra tu cobrar na próxima.
– Ta certo, boa noite.

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E ele deixou a mala com os corações congelados dentro do elevador, quase despenquei com ela. Evantro, entre parênteses, alemão. Um carrão dos 50’s no cartão, borda do word, papel bagaceiro desses que imitam textura de linho. Vou ajudar esse Evandro. Quem sabe ganho umas corridas.

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Tiraram a Peixa Letícia Amarela da entrada do Quebec. E agora? Como identificar a minha morada?

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Tentava focar as linhas da Piauí com a luzinha do ônibus quando um jovem Carismático sentou do meu lado.

– Tu é de Passo Fundo?
– Não.
– Ah, ta indo de viagem?
– Não, trabalho.
– A gente é de Londrina, ta viajando junto.
– Percebi pelas mochilas coloridas e alegria do fundão.
– hehe, incomoda?
– Não, já fiz muito disso.
– Por Jesus também?
– Não, querido, por mim.

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– Quem vai desce no Notre Dame?
– Ganha desconto?!
– Heim?!
– Um táxi do Notre Dame até a Rodoviária dá quase dez pila. Se tu descontar isso da passagem eu paro ali.

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Engraçadinha eu, muito engraçadinha.

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Bananas congeladas na geladeira. Conta de luz de cinqüenta e quatro pila na caixinha. Festa no vizinho. Sono. De volta em Passo Fundo, melhor a cada dia.

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