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das conveniências

Getúlia foi minha melhor amiga durante três meses, ainda no começo da faculdade. Contei à ela, ineditamente, sobre a minha paixão platônica por um amigo e ela me contou, ineditamente, que preferia meninas. Achei que fosse alguma espécie de jura, essa troca de confidências. Dormimos na casa uma da outra algumas vezes, depois de fazer aqueles que foram os trabalhos mais bem feitos do começo da faculdade. Conversávamos quase até a hora de levantar, assistíamos filmes, chorávamos e nos entendíamos como se fossemos amigas de vida inteira. Começamos um estágio juntas, eu era mais freqüente, era tudo o que eu tinha da vida. Acho que um dia me tornei desinteressante para Getúlia. Eu podia ser trocada facilmente por qualquer usuário novo de all star que chegasse à cidade. Esperei por ela muitas vezes. Já não éramos melhores amigas e suspeitava que nunca havíamos sido. Sempre soube fazer o trabalho desinteressante, ela não. Getúlia não gostava de lavar a louça, mas adorava comer o doce. Descobri pessoas que não me deixavam só no bar, que sabiam ouvir, que ajudavam a limpar a sujeira depois da festa. Getúlia aparecia de vez em quando, sempre adorável com o seu violão e histórias pra contar. Mas depois ia embora, pra qualquer outro lugar, e já não fazia falta. Era assim, a menina. Não fazia falta à mim nem aos outros. Digna de pena, talvez. Algumas das conversas mais sérias que tive com as pessoas que mais admiro no mundo foram pautadas por ela, das últimas, ela foi pauta. Não de brilhantismo, como vocês podem imaginar, mas de piedade. Getúlia formou-se, especializou-se e ligou outro dia porque estava na cidade e não tinha com quem sair. Felizmente havia uma festa na casa de um casal amigo. Ela foi, conhecia todo mundo e não era conhecida por ninguém, talvez de alguma publicação. “Ah sim, Getúlia Guerra!”. E assim ela passou a noite, de roda em roda, de copo em copo, de história em história. Ferrou-se apenas quando foi cochichar sobre a falsidade de Arthur nos ouvidos de Carolina. Carolina e Arthur eram irmãos. Getúlia saiu de fininho, vi a mãozinha fechando a porta e senti pena. Ela não teve como argumentar, tinha encerrado uma conversa sobre “papagaios de cinema” com Arthur, dizendo que sempre lembrava dele com muito carinho e dizendo que a Carol era a maior leitora de orelhas que ela já havia conhecido. Lhe faltou memória para segurar tanta mentirinha.

– – – –

_disse que você roubava as idéias dela.

Bom, e foi assim que (mais uma vez) ficou provado que pessoas boazinhas se fodem. Ok, ok, sei que não deveria ficar irritada com esse tipo de comentário, ainda mais quando vem de uma pessoa “conveniente” (essas para as quais você é interessante quando pode oferecer algo). A questão toda é quando a conveniência torna-se pública, quando todos os que não são convenientes percebem que aquele olhar ingênuo e bondoso vai além do oportuno e te golpeia pela nuca. A questão é quando a farsa põe em voga o título da “amizade”. Quando você pára e viaja “mas poxa, eu admiro tanto a fulana”, aí você viaja com maldade “pelo visto os anos passeando por consultórios e deglutindo cápsulas de alegria não valeram muito”, aí você se sente mal, por que nada do que ela disse deve ter sido intencional, afinal, ela tem problemas, coitada, todo mundo deveria entender isso e abraçá-la oferecendo conforto e cerveja. Claro, apenas quando fosse conveniente para ela – que bem pode estar lambendo os sapatos de algum leitor de Deleuze e te deixando na mesa, sozinha, a noite inteira.

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