Categorias
Sem categoria

O Drama das Coisas


As coisas me sufocam. As minhas coisas me sufocam. Elas sem mim serão elas, serão coisa, eu sem elas serei o quê? Serei eu sem as coisas, simples. Preciso apenas de atitude.

Descoisificar-me é a meta para antes do próximo ano. Abrir caixa por caixa e inutilizar coisas que já são inúteis. Tenho gira sóis de lapela, cartola vermelha, perucas, paetês, coco de silicone e muitos, muitos recortes de jornais e revistas. Tenho trinta e dois colares desses compridos de bolotas e correntes e coisas assim, sem contar os colares delicados que ficam em caixinhas protegidas por algum veludo preto. Ter trinta e dois colares é totalmente desnecessário. Farei um blog para vender os colares, as revistas, os sapatos e alguns livros. Tenho armações de óculos antigas. Tenho óculos do pai, da mãe, da vó.

Ainda tenho todas as apostilas da faculdade. Tenho as apostilas de Buenos Aires. Tenho as apostilas da especialização. Tenho os textos dos estudos de cinema. Tenho os certificados, os diplomas e mais de 40 crachás com suas respectivas cordinhas. Tenho as passagens do mochilão, os folders dos hostels onde parei, as bandeiras dos países. O guardanapo assinado pelo caminhoneiro que nos desceu a Cordilheira dos Andes. Tenho uma rolha, uma tampinha, um chocolate colombiano, um envelope de tóxico, aspirinas francesas, esmaltes espanhóis e moedas mexicanas. Tenho mouses, caixas de som, teclados e fones de ouvidos. Tenho uma placa de captura enferrujada e uma camisa azul furada.

Eu guardo as coisas para ter lembranças. Prevejo alguma amnésia. Prevejo alguma solidão maior. Pra isso eu tenho as coisas, tenho as fotografias, as réguas, os clipes coloridos, as cartas, as canecas, as chaves, os chaveiros, os frascos de perfumes que acabaram, os desenhos, os bloquinhos e a embalagem tri massa do Presente de Natal de 2002. A gente nunca sabe quando vai precisar do nariz de palhaço, do chapéu mexicano ou daqueles pingentes de pedra, né? Habermas explica.

Descoisificar-se é mais difícil do que parece. É como decidir acabar um namoro. É como desnudar-se. Pelo lado positivo, é ter espaço para o novo. É libertar-se. Abrir-se para coisas novas. É refazer-se. Huahua.

Eu sei lá, são tantas coisas sem valor, sem utilidade, sem motivo. Essas coisas são eu e eu não quero mais ser elas. Fim. Brechó de garagem amanhã, incluindo a panela pipoqueira que, graças a alguma força, não dei de presente. Venderei tudo baratinho, dando pra comprar uma passagem de ida, vendo até a flor de vidro que ganhei em uma noite feliz.

=)

(…) Pode-se considerar o capítulo central da História e Consciência de Classe, fundado na análise da “coisificação” (Verdinglichung), como uma síntese potente e original da teoria do fetichismo da mercadoria de Marx, e da teoria da racionalização de Weber. Fusionando a categoria weberiana de racionalidade formal – caracterizada pela abstração e quantificação -com as categorias marxianas de trabalho abstrato e de valor de troca, Lukács reformulou a temática do sociólogo alemão na linguagem teórica marxista. De outra parte, sua extensão da análise marxiana da forma mercantil, e da “coisificação” a outros domínios da sociedade e da cultura, se inspira diretamente nas análises weberianas da vida moderna, impregnada pelo espírito capitalista do cálculo racional(Rechnenhaftigkeit).

Com o desenvolvimento do capitalismo, a “coisificação” termina por englobar o conjunto das formas de emergência da vida social; começando pelo Estado, pela administração, pela Justiça e pelo Direito. Se trata, segundo Lukács, de uma homogeneidade estrutural constatada por “todos os historiadores clarividentes do capitalismo moderno”. Quem são essas personagens clarividentes? O único exemplo mencionado é, não por acaso, Max Weber…Citando numerosos textos, entre eles a seguinte passagem de Economia e Sociedade: “A empresa capitalistamoderna repousa interiormente antes de tudo no cálculo. Tem necessidade para existir de uma justiça e de uma administração em que o funcionamento possa ser, também, ao menos em princípio, calculado racionalmente segundo regras gerais sólidas; como se calcula o trabalho previsível efetuado por uma máquina”. Também com base em Weber é que vai analisar o sistema burocrático, colocando as descrições aparentemente “neutrais” do sociólogo de Heildeberg ao serviço de uma crítica feroz ao caráter inumano e reificado dessa racionalidade administrativa puramente formal e sua “depreciação crescente da essência qualitativa material das “coisas”. (…) Michaël Lowy

2 respostas em “O Drama das Coisas”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s