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o sonho dos elefantes

gosto desta coisa de definir sentimentos. esta minha mania de conceitos (é preciso ter paciência). hoje fomos em uma espécie de teatro-yoga-psicanalise-concierto-alternative_vibe que se chamava “el sueño de los elefantes”, éramos uns 8 espectadores e uns 8 organizadores. chegamos, tomamos mates, tiramos os calçados, entramos na sala tal, pusemos vendas e deitamos espalhados sobres colchonetes, cobertores, travesseiros e alguma penumbra de incenso bom – e olha que não gosto de incenso. meia luz. alguém estourou um balão. fechamos os olhos. nos acostumamos com o escuro. *começa o show de sons em uma peça da garagem da avó de um dos organizadores. tento definir: sax, era um sax? barulhinho de água. suspiros. xilofone. era um sax, né? guizos. barulho de vento. passarinhos. vento. trem. tento definir os sons. o incenso. que lugar, heim? vibe-loca em pleno domingo de tarde. as amigas deitadas ali por perto. será que estavam entendendo? o que estariam pensando? quando vão aparecer os elefantes? interacción in conciente. frio, né? tentei me esticar um pouco mais e encontrei uma manta no escuro. escuro. espiei através da venda, um argentino se aproximava de mim com um sino. fez soar suave pertinho da minha cabeça. no outro lado da sala, outro argentino movia muito cal-ma-mente um guizo de pedrinhas de barulhinho que pareciam conchinhas do mar. deixo de ser curiosa. pra que estavam aplicando aquilo à desconhecidos? o que estaria pensando a moça do bolero cinza? deixo de pensar nos outros e nos elefantes. me perco na divisão dos sons. muitas vozes. risadas. vontade de rir. desespero. chorei. uma lágrima só. do olho direito. pensei nos outros. alguém roncou. poderia dormir, pensei. poderia organizar a vida agora, pensei. o que será que o argentino que me ajudou a entrar em casa esta manhã pensou que eu fosse fazer com ele? sexo? será que ficou chateado porque eu dormi escorada no ombro confortável que ele tinha enquanto falava alguma coisa que nem entrou no meu sonho? eu tinha que me apaixonar, pensei. a vida fica mais fácil quando tu estás apaixonado. aí pensei nas minhas amigas, noventa por cento solteiras em busca de alguém legal. aí pensei que tu encontra a pessoa legal e depois perde, porque as pessoas estão sujeitas à mudanças. pensei que se tu não muda conforme elas (não pra tornar-se a mesma, claro, mas pra evoluir ao mesmo passo) tu te perdes. vocês se perdem. nós nos perdemos. estamos sujeitos a ficar perdidos cada vez que pensamos um pouquinho mais pra lá do muro da vizinha. pensei também em: pra que serve pensar pra lá? me deu uma saudade de casa. da mãe, do pai. saudade do sobrinho que preciso ficar olhando as fotos pra lembrar do rosto. dos irmãos. das cunhadas. da sobrinha. saudade da sobrinha e de ter os sonhos de uma garota de 10 anos. quando eu tinha dez anos o que eu mais queria era não ser gordinha, que o allisson não gostasse de mim e que eu fizesse logo 15 anos e me apaixonasse queném nos seriados, por algum garoto de 16. com 10 anos eu não queria estar apaixonada, eu gostava das bonecas, das rapinhas de doce e dos patins. pimba. já tenho 23 e não estou apaixonada. troquei e-mail e telefone com 4 argentinos diferentes em 3 dias, 3 deles entraram em contato. acho que se tu não te apaixonas de primeira, não te apaixonas de segunda. eu sou apaixonada por dois moços e nunca disse. me apaixonei por eles de primeira. eles não. acontece. um dia, se uma paixão maior não aparecer, eu escrevo uma carta. por esses argentinos eu não me apaixonei. achei interessantes. gostei de conversar. pensei nisso enquanto deveria estar sonhando como os elefantes. paixões meio podem ser elefantes nos meus pensamentos. pensei. um deles escreveu um poema em um guardanapo, achei bonito. o outro disse que meu perfume era o melhor e que faria tudo pra eu dançar com ele – tóin, não se dançava naquele pub – ele era ator – não sei até que ponto podemos confiar em atores. o outro tinha um piercing na língua e me trouxe em casa, gentleman, nem pediu nada e ainda deixou um bilhete. pensei no bilhete com o msn no rodapé. queria ter me apaixonado. acho que quando tu estás apaixonado as coisas ficam mais fáceis. não me apaixonei por nenhum deles. nenhum deles e nenhum de seus nomes: martin, augustin, fabin, in, in, in. dormi. acho que dormi uns 10 minutos e acordei com alguém falando algumas palavras. pensei que fosse algum recado. A água continuava caindo e o incenso continuava entrando no meu nariz – pensei que deviam ter posto algum alucinógeno no ar, não puseram . virei no chão. pensei outra vez nas coisas que tinha pra fazer. nos elefantes. nas selvas africanas. nas mulheres suadas e sofridas carregando seus filhos desnutridos. pensei nos filhos. lembrei outra vez do sobrinho. tão saudável. tão bonito. tão meu. pensei no emprego. que preciso de um. que preciso de dinheiro. que preciso de um apartamento onde me sinta melhor. que preciso de um computador novo. que preciso de mais jobs. que preciso ler o marx e o nietzsche de uma vez. que preciso pagar o curso de espanhol. lembrei que na quinta começo uma aula de arte gráfica experimental. acho que vai ser bom. estariam dormindo as minhas amigas? eu tinha fome. uma baita de uma fome. lembrei que esqueci de tomar o remédio que me tira a fome e faz emagrecer. será que já emagreci? bem que eu podia estar mais magra até sexta. sexta vai ser importante. tenho um encontro com um moço argentino que conheci da primeira vez que estive aqui. acho que vai ser um tipo de encontro de duas pessoas. ele vem me buscar em casa. será que ele é do tipo que topa ir num evento chamado “el sueño de los elefantes”? ou ele é do tipo que trabalha usando gravatas, tem um pouco de dinheiro e só quer jantar com as moças pra tê-las de sobremesa?! pensei nisso e em como o sexo prejudica o tempo do amor. porque, se a gente faz sexo com muita gente, acaba não tendo tempo de se apaixonar direito, né? porque parece que se é fácil de ter, é fácil de trocar. tipo essas coisas que a gente não se importa de perder. tipo isqueiro. tu tem, se perder, compra outro ou rouba o de alguém. não to comparando amor com isqueiro, gente, mas é que banalizar o sexo ainda não faz parte da minha vida moderna (e a palavra não é banalizar, mas tipo, deixar trivial). quase comecei a pensar na modernidade, no weber, no marshall e no bendito do habermas, mas me deu frio e me encolhi mais um pouco. queria parar de pensar em tantas coisas. queria que os elefantes parassem logo de sonhar. vir pra casa. trabalhar. tenho tanto trabalho. vocês nem imaginam. tenho trabalhando tanto. estudado tanto. caminhado tanto. a vida tá bem difícil. mas lá estaria pior. estaria amena. uma vez uma pessoa saiu da minha vida porque ela estava amena. uma vez uma pessoa foi embora porque certa noite reclamei do barulho dos cachorros da vizinha. eu não sou amena. acho que, se fosse, não pensaria tanto em outras saídas. os barulhos mais fortes pararam. os sinos ficaram tocando na minha cabeça. um argentino sentou do meu lado e esbarrou a mão, muito de leve, nos meus cabelos. quase quis um cafuné. lembrei que queria estar apaixonada. fiquei com medo de me apaixonar sexta. lembrei que se a gente não se apaixona de primeira não é de terceira que vai ser. fiquei tranquila. acabou. rimos. de repente quis um mate. não quis. viemos embora. queria sonhar com os elefantes. e queria que eles fossem amarelos.

3 respostas em “o sonho dos elefantes”

me apaixonei. de primeira, pelos elefantes, pelos argentinos, pelas mulheres sofridas. até pela saudade, que pode até ser bonita. não toma remédio, não é legal. qual o som do xilofone? guarda lugar pra mim aí que um dia eu vou. eu vou.

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