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Ela chegou toda destrambelhada. Mochila pesada, cadarços soltos, cabelos embrulhados. Ele estava esperando. Todo lindo. Braços abertos. Cigarro aceso. Sorriso brilhante. Ela sorriu. Ele abriu os braços e veio. Ela abriu os braços e foi. Caiu a mochila. Caíram as cinzas. Eles ficaram lá, hora e meia mais ou menos. Chovia fino. Ventava frio. Lado a lado. Embaixo da marquise. Sobre os degraus do antigo empório doméstico. Ele convidou pra entrar. Ela preferiu ficar fora. Conversaram. Conversaram sobre todas as coisas que não devem ser convertidas em bytes, jamais. Depois de toda conversa e nãoseioque eles entraram na luz amarela. Mochila no canto. Violão no chão. Frio. Ele abraçou ela. Ela se encolheu nele. Dormiram. Enroscados. Cheios de tudo. Exaustos de nada. Vazios de amanhã.

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tele – fonemas

(…)

– sabe aquele catálogo da…
– sei! Não me diga que tu fez?!
– pois é… andei criando alguma coisa porque…
– poxa, que bárbaro! Porque não me mandou ainda?!
– é que eu achei que…
– aaaa guria!! Como andas?!
– to aqui, com frio.
– chovendo?!
– eu não. mas lá fora… rrsrs… e tu?

– na correria, sempre.
– ah, então ta… ligo outra hora.
– nããão, agora to parado. Rsrs…
– mas era pra ver do catálogo mesmo, to usando ele pra um livro de artistas da especialização…
– ta massa?!
– agora ta começando a ficar jóia… aí to fazendo o catálogo como projeto…
– to loco pra ver, me manda?!
– a marca já ta ok… preciso das fotos, tu me manda?!
– temos que ver como fazemos pra fotografar…
– tu fotografa. Eu monto. Ok?!
– assim, dividido?
– é melhor, agiliza.

(silêncio)

– bueno, tenho q acordar cedo amanhã.
– ta certo, legal vc ter ligado… outro dia eu tava pensando em ligar pra vc e…
– ñ tenho telefone em casa. não esquece de mandar as fotos, ta?!
– ta bom…
– boa noite.

(cabeça no travesseiro, nariz pra baixo).

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stranger

Os meus olhos vêem o que o meu coraçãozinho esmigalhado espera. Às vezes não vêem nada, os pobres, de tão cansados. Outras vezes, ébrios, enxergam vultos de cumplicidade, deixas do acaso, resquícios de novo ponto.

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do domingo…

Fui fazer pipocas com brigadeiro e queimei o céu da boca. Queimei inteiro, de sair a pele e nem poder comer as pipocas. Ainda bem que as mucosas cicatrizam rápido. Bem que o coração da gente podia ser uma mucosa. Né?! Ai cortava, queimava, sangrava e já… fechava e pronto. Tirava um pedaço e reconstituía facinho.

Lá venho eu, de novo, falar das panes no coração, se já concluí que o problema todo é que sou uma sozinha…. Hoje concluí umas coisas extras, graças a um boneco que queria aqui enrolado nos meus pés frios(:*)… O problema são as minhas solidões (vejam, já são mais de uma) e as minhas expectativas. Ou melhor, as minhas ilusões de expectativas. O problema é que eu sempre as tive, e, de repente, apaguei todas. Apaguei todas as possibilidades e os anseios. Troquei os “se” pelos “é”. É fato. Sou sozinha. “A minha alucinação é suportar o dia-a-dia e o meu delírio é a experiência com coisas reais”.

Eu não consigo sozinha. Eu não consigo porque até as cores me lembram das coisas. E eu não quero tirar até as cores da minha vida. Eu queria você aqui comigo pra que entendesse.
Eu sou sozinha. É a real, todos somos, na verdade. Eu e o meu esteriótipo, e isso tem me irritado. Como Narciso, sujeita apenas do meu sonho. Nada. Apenas a ilusão de mim. E isso é realmente triste. Eu tenho tido dificuldade com as pessoas, e eu nunca tinha. Agora, deixando a profundidade de lado o que eu quero é ficar “coloda a tua pele noite e dia” (hehehehe). Só queria te esclarecer que ainda sou muito moça pra tanta tristeza, ou coisa parecida.

É a merda da expectativa. Que me mata e me faz continuar…

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E depois eu fiquei pensando nessa coisa de sentimento… pensei que eu era muito guria pra entender as pessoas grandes e que o meu coração era ainda muito novo pra entender de amor. Aí me lembrei de como sofri/sofro porque ele doía/dói e depois pensei que afinal, o que era a porra do sofrimento? Aí pensei que talvez eu sofresse pra não me sentir sozinha. Pensei que talvez eu precise – constantemente – ter alguma coisa pra me preocupar e pra me fazer doer que não seja eu mesma. Injusto comigo, né? Podia simplesmente “sofrer” por mim e deu, não precisava envolver nenhum indivíduo no meu dramalhão mexicano. Até os pobres mexicanos já se envolveram na minha constante fuga. Que estranho pensar essas coisas. É como um: “pô, que sacana que eu sou com o mundo”. É como dividir a culpa. É quase uma vergonha, porque trata-se de não admitir a solidão. Sei lá, pensei isso enquanto o vestido voava tão vermelho contrastando com o tão amarelo do céu, na rua.

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Exijo que se apresente agora a criatura que sabe que insiste sem fé nenhuma, e que ela me explique porque o faz. Ando tateando pelo mesmo caminho, me perdendo nas curvas do tantofaz, externando desimportancia pelo que me desacontece todos os dias. forjando indiferença pelos bagaços que me querem atirar.

Aloha encantamento, quanto tu cobras pra ficar mais quinze dias?!

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Sonho.


Passo Fundo, 01 de junho de 2007.

Saiba que pensei muito antes de descrever àquela nossa última noite… Pensei tanto que achei justo que soubesse que nada planejei, que nada esperava, que nada arrependi.
Infelizmente não pude ir na cerimônia de premiação, mas soube que o vento-norte afinal e merecidamente soprou pro teu lado. Te juro que sorri da mais pura felicidade e queria te abraçar daquele jeito que a gente fazia por felicidade ou tristeza, sem falar nada. Mas não podia, não devia, não precisava, não merecíamos. Então estava do meu jeito de sempre, com meus olhos nos filmes alheios, minha cabeça querendo dormir, minha presença sendo quase obrigatória para manter algo que… enfim. Estava lá, e o telefone tocou, e era você! Do jeito de sempre, como se os meses não tivessem fugido, como se meus cabelos não estivessem mais curtos e meus vícios não estivessem maiores. E você me falou da festa, e me falou do prêmio, e me falou de como estava feliz e disse que em cinco minutos me queria lá pra brindar e comemorar e que sim eu podia levar quem eu quisesse desde que dançasse contigo aquela nossa música de honra que eu pensei que você jamais lembraria o nome. E sim, é claro que fui. É claro que fomos com os nossos bótons, poás, all stares vermelhos velhos. Claro que fomos e claro que foi tão natural como se nada, nada eu tivesse chorado e morrido desde que parti. E ao chegar te vi do outro lado com a cerveja na mão, os cabelos nos olhos, o braço pra cima discursando alguma coisa que com certeza eu já tinha ouvido… eu ri e fiquei ali, parada, paradinha de mãos dadas com meu par de all star velho no chão. E foi aí que você me viu e veio atravessando o salão sem olhar pra nenhum lado e só me disse minha querida como você está diferente e eu ri baixinho e então você cumprimentou o meu all star velho que foi buscar uma cerveja. E ficamos nos olhando e rindo como na penúltima vez que estivemos juntos sem saber o que falar e então te cumprimentei pelo prêmio e tu me cumprimentou pelos prêmios do planalto, pelo cabelo novo, pelo all star novo, pela especialização, pela mostra, pelo último artigo publicado e eu não podia falar nada porque me sentia invadindo espaço. E você ainda com a mania de tocar e esbarrar e cuspir e tudo mais e me dizendo que eu não deveria fumar mas que eu estava ótima e tudo mais e eu dizendo que sim que sabia que estava ótima e tudo mais, mas na verdade eu queria que você visse que não é bem assim, que nada nada está ótimo e que tudo tudo é invenção minha e que dói e dói a tua ausência e as minhas barreiras são tão doces que derretem com qualquer olhar teu…. e queria correr, e sair dali e queria ficar e ficar pra sempre ao lado teu… porque meu bem, ah meu bem…

Só que ela estava lá, do outro lado, olhando pra mim e deixando, deixando você ali porque sim ela estava segura de tudo e não precisava temer meus cabelos novos, meus títulos, meu cheiro porque afinal ele nem era importante pra você. Mas ela bem sabia qual era, ah sim, ela bem sabia… e eu bem sabia, eu bem sabia do cheiro teu que não era bom, mas era teu, teu.

E meu all star vermelho velho e charmoso voltou e me levou pra dançar e te perdi na multidão. E tu me perdeu nos braços dele. E eu me perdi nos braços dele e chorei, chorei, chorei por mais três dias e três noites por não suportar a dor de saber, saber tudo e não poder fazer nada por nós dois. Por nós três. Por nós quatro.

Chorei só mais três dias e então sequei, pra sempre.