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aula de ética

primeiro dia. chegar 15 minutos atrasada. sentar num canto, em uma cadeira baixa. não ter comprado a bibliografia. não ter referências básicas de aristóteles. ter, outra vez, de se apresentar em público. o mestre ficar assustado por ter uma aluna americana. o mestre ficar tranquilo quando ela diz que vem da universidade federal de santa maria. ficar tranquila por ser reconhecida como brasileira e oriunda de uma academia com boa fama. cruzar os dedos das duas mãos e, erguer um pouco o pescoço pra que o professor lhe possa identificar o rosto. dizer que está ali para abrir a cabeça. que está ali porque quer pensar mais. que está ali porque lhe interessam as novas tecnologias. a relação do homem com elas. a relação do homem com os outros homens por causa delas. a vida. ter que suspirar após dizer que lhe interessa a vida e ouvir risadas dos colegas e do professor, aliviados, pois a estranjeira é divertida. encerrar a apresentação. silenciar o celular. pegar papel. pegar bic. escrever a data. a aula finalmente começar e não entender absolutamente nada porque esta no fim do fim, o professor está gripado e fala muito baixo e muito rápido. a cabeça começar a doer. a doer. sentir que flutua. sentir que a perna esquerda adormeceu. entender que a moral é a moral da ética. lembrar de tudo o que tem pra fazer amanhã. lembrar que em casa tem remédio pra dor de cabeça. anotar. desenhar. anotar. virar a página. esticar-se entre os dois colegas da frente tentando filtrar o ruído emitido pelo mestre. entender que ele é engraçado. altamente engraçado. perceber que é bonito. perceber que, por nossa senhora da bicicletinha, o professor é um bonito. sair para o intervalo. comprar um café duplo e forte. receber massagem na mão para aliviar a dor da cabeça. comer um brownie. tomar um café. comprar a bibliografia. voltar pra sala. agradecer a colega mexicana que gentilmente cede uma cadeira mais a frente. achar que uma colega tem a voz mais irritante do mundo. achar que a outra colega é muito convencida. babar pelo professor. pelo professor engraçado. afundar-se em aristóteles. falar de morte. ouvir o professor falar de morte e lembrar da morte do amigo. chorar na aula de ética. lembrar do amigo. anotar o dito mais importante da vida: “todos sentimos dor diante das mesmas circunstâncias”. querer dormir.

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Meu Primeiro Cortejo

Por volta das quatro da manhã, o motorista simpático do táxi executivo, tentando puxar assunto, pergunta: “Bah, tu viu que tragédia com aquele jornalista do Diário?”.

Eu, tentando descolar a cabeça do vidro traseiro, respondo: “Vi, estou voltando do churrasco de despedida dele”. Silêncio.

E foi-se. Talvez o dia mais triste da minha vida. Não tenho certeza. Sei que foi o meu primeiro cortejo. Minha primeira vez de querer acreditar que o mundo não termina com a morte. É muito injusto.

Um pouco menor que o número de amigos aplaudindo depois do último tijolo cimentado (com direito à percussão de pranto) era o número de viúvas. Chegou a ser engraçado. Mãe, pelo menos, só eu (eu – nossa senhora). Prenda, só a Fran. E dessas discussões sobre quem tinha mais importância pro moço, a gente riu e conseguiu “desestufar” o peito com brindes, fumaças e música tradicionalista – que nunca foi meu chão, mas ta, uma noite a gente agüenta.

Pensei que iria dormir o dia inteiro hoje, mas as gaitas, aplausos e poesias violaram a tentativa de sonho que armazenei no travesseiro. Azar. Levantar e trabalhar. Ser o mais legal possível com as pessoas. Pisar firme e sentir o tempo. Deixar acontecer sem esperar que seja magnífico. Simples assim a vida tem que seguir.

Não vou mais falar disso aqui no tramela. Fim.



Notas mentais: conhecer a minha alma, mandá-la a encontrar a dele e cagar de pau.

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ai [suspiro doído]

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menino de alma leve, voando sobre o pelego

“encontraram o corpo”. mas eu não quero o corpo. eu quero ele fazendo xixi no portão da minha casa. quero no sábado de manhã vindo buscar os engradados vazios para trocar por cheios e a gente ir acampar. quero ele no sábado de noite, com chuva, pra tomar o vinho de colônia ruim quase virado em vinagre cada vez que eu perdesse no pife. quero ele acendendo cigarro no DCE, me ensinando a focar e desfocar a câmera na feira do livro de 2004. quero ele me chamando de mãe e esfregando o nariz na minha testa. quero ver os braços abertos. o sorriso debochado. a atenção com meus dramas de ir e vir. quero ele no meu primeiro xis em uma das voltas pra santa maria. não quero mais as assinaturas guardadas nos rótulos de cerveja, eu quero outra vez as cervejas e os brindes com TODOS os amigos juntos. eu não quero um corpo afogado. eu não aceito uma morte besta. eu não quero dar tchau pra alguém que eu quero encontrar no ponto de cinema numa terça de noite, emocionado com os gols do inter, gritando e gesticulando e limpando os óculos na camisa. eu quero tomar chimarrão no rio de janeiro vestindo bombachas. eu quero que o telefone toque me perguantando qual é a boa. eu quero que o msn pisque debochando da minha cara. quero saber as notícias antes. quero ver outra vez o documentário. eu quero brigar com ele porque faz a minha amiga sofrer. eu quero chamar ele de sem-vergonha. quero dar os cascudos de brincadeira. quero que ele me ensine como pintar as paredes com tinta acrílica. quero que me ensine a montar a ilha de edição. quero que ele peça as pizzas e dirija o carro. quero que mande uma mensagem dizendo que outra vez perdeu o celular e troucou de número. quero abrir o jornal e ler as matérias assinadas por ele. quero que meu pai diga: um amigo teu caiu numa valeta em uma cavalgada que a gente acompanhou de caminhão. eu quero rir disso e guardar a foto do jornal com aquela risada disfarçada. eu quero que me peça a bênção. eu quero dizer a ele que faça o milagre da multiplicação do feriado. quero dizer pra ele que a música que ele escolheu pra formatura era horrível. quero que ele deboche da minha lista de chá de panela. quero que ele vá nos meus aniversários. quero o abraço apertado e o “como que tá, guria?”, seguido do “mãe, tu não pode sumir assim”. tu é que não pode sumir assim. não pode. não gosto. não quero.